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2013/11/25

25 de Novembro, para que ninguém esqueça!

E nestes dias que tanto fazem lembrar esse Verão quente, ao ver a postura de Eanes (o grande obreiro desse dia e primeiro PR eleito) com a postura de Soares (outro vencedor desse dia que tanto se bateu então contra a mesma extrema-esquerda e militares que agora reúnem consigo na Aula Magna e segundo PR eleito) percebo que a idade actua de forma diferente sobre as pessoas: na maior parte dos casos, como com Eanes, refina as suas qualidades; nalguns casos, como com Soares, acentua os seus defeitos...

O meu agradecimento ao General Ramalho Eanes por esse dia e pelo comportamento cívico e moral irrepreensível que tem tido nestes dias tão difíceis, como o teve nessa longínqua época de 1975.

Foram homens como ele que nos permitiram evoluir e melhorar a qualidade de vida numa República Democrática em vez de nos afundarmos numa qualquer República Popular como queriam homens como Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Cunhal, Jerónimo e tantos outros que agora sob a batuta de Soares revivem esses longínquos dias do poder na rua como forma de intimidação do Governo democrática e legalmente eleito.

2013/10/05

Jorge Álvares: 500 anos depois de chegar à China

Estátua de Jorge Alvares, na Praça Jorge Alvares,
em Macau (foto Wikipedia)
Assim o diz a estátua em sua honra na praça com o mesmo nome, Jorge Alvares.

Faz este ano de 2013 os 500 anos que Jorge Alvares aportou na ilha de Lin-Tin, hoje Hong Kong, tendo sido, segundo os registos, o primeiro europeu a chegar à China pela via marítima, oriundo da Malaca.

Mais uma vez, Portugal passou ao lado desta data (pelo menos que saiba...) e parece que continua a haver gente em Portugal que em vez de ter orgulho de uma gesta de gente que teve a coragem de embarcar em "cascas de noz" e atravessar mares desconhecidos, permitindo que ainda hoje a nossa língua e cultura esteja espalhada por todos os continentes, mas dizia eu que em vez de ter orgulho, essa gente parece ter vergonha.

Pois quem vive a Diáspora, como eu, e para mais teve a felicidade de a viver nos locais por onde os portugueses estiveram há 500 anos, em tenho muito orgulho e estou muito grato a estes nossos antepassados - sem eles, sem a sua coragem, sem os novos mundos que deram ao mundo, eu não teria tido a oportunidade de ter estado no Lobito ou em Macau...

2013/09/29

É hoje!

Há muitos anos que não vivia uma noite eleitoral madrugada dentro.

Hoje, graças à diferença do fuso horário Portugal-Macau, que é de 7 horas neste momento (e em breve será de 8 horas quando a hora mudar em Portugal e aqui se mantiver...) os resultados deverão começar a ser conhecidos pelas 3h da manhã e só pelas 4h ou 5h é que devem começar a chegar os primeiros resultados, via internet no site das Eleições Autárquicas 2013 do concelho que mais interessa, Guimarães.

Vai ser uma noite longa. E sofrida, naquele misto de ansiedade de ver plasmado o resultado de parte do meu esforço e envolvimento (mesmo que tenha sido só na fase inicial do processo e não tenha participado na fase mais envolvente, cansativa mas também gratificante que é campanha eleitoral. Em 2005, quando participei activamente em todas estas fases, quando percorri inúmeras freguesias na fase de encontrar os candidatos, de visitas às instituições e estive activamente envolvido no processo de elaboração das 71 listas entregues no Tribunal (e que trabalheira que então deu, num processo quase perfeito, com apenas 1 elemento recusado em mais de 1000 candidatos apresentados) os resultados foram, tão somente, os melhores desde as vitórias do Sr. António Xavier nos idos de 80. Confio que desta será melhor que em 2005. Confio que desta vez poderei celebrar a vitória como fiz em 1986, há quase 30 anos atrás. Será a maior injustiça da noite eleitoral se assim não for...

Resta-me, serenamente, aguardar pelo veredicto do povo vimaranense.

2013/05/25

O sucesso do futebol alemão

Muito interessante o conjunto de artigos que o Mais Futebol publicou sobre o sucesso que o futebol alemão tem no presente, medido pela inédita final da Champions League exclusivamente alemã que mais logo o Bayern e o Dortmund vão disputar em Londres.

Imagem Mais Futebol

Os artigos podem ser lidos aqui e aqui.

Resumidamente, o que se pode ler é que o sucesso do "novo" futebol alemão baseia-se na formação e no forte investimento que aí fizeram desde que em 2000 perderam 3-0 contra Portugal - chegam até ao extremo de considerar que tudo começou com um túnel de Capucho sobre o idoso Mathaus.

E como foi feito esse investimento?

Pelos clubes, que para se inscreverem na 1ª Liga (e depois também na 2ª Liga) foram obrigados a terem academias de formação com determinadas condições e características  bem como uma maior atenção da Federação nas camadas jovens.

O resultado é evidente: desde 2006 que estão no pódio de todas as competições, ganharam títulos inéditos nos escalões de formação e estão na 2ª final consecutiva da Liga dos Campeões, esta ineditamente com 2 equipas alemãs.

Portugal, com as devidas diferenças, deveria apostar num processo semelhante - talvez com mais investimento da Federação e menos dos clubes, já que esta tem contas a prazo com dezenas de milhões de euros que nada rendem ao futebol nos bancos. Enquanto planteis como o do Benfica ou o do FC Porto joguem finais europeias quase sem portugueses, não está garantida a renovação da Selecção e é um falso domínio do país - que se traduz em maus resultados de uma Selecção que não tem bases de captação e renovação, onde apenas os clubes recheados de estrangeiros fazem sucesso e a Selecção definha a cada apuramento - e o mais estranho é que ambos os clubes tem academias e fazem um forte investimento nos escalões de formação, mas sem o retorno que se esperaria, talvez porque são poucos os clubes que apostam nisso.

2013/04/06

Macau, 2h28 da manhã

Ainda chega a PM antes de eu chegar a Portugal...
Não aguento mais o suspense - ou isso, ou é o sono!

Vou dormir na certeza que Pedro Passos Coelho ainda é o Primeiro-Ministro.

Mas tenho a ligeira sensação que amanhã, quando acordar, não será. E algo me diz que como Cavaco (e, já agora, os patrões) é contra novas eleições, como o Seguro é um palhaço e como a Troyka ainda deve mandar alguma coisa neste país, com a bênção do PSD (em parte) e do CDS (em maior parte) e de Cavaco (na totalidade) e da Troyka teremos ainda na próxima semana um novo Governo liderado por Rui Rio...

Ou então, mais uma vez, deve ser do sono... Vou dormir e amanhã quando acordar vejo se o mundo mudou ou ainda é o mesmo de sempre...

Relvas, o TC e o Governo

1. Relvas demitiu-se e arrisca-se a perder a licenciatura, retirada após inquérito conduzido pelo colega ministro da Educação. Saiu no seu timing, como eu sempre disse que ia acontecer, após resolver os "dossiers" que tinha em mãos: RTP, TAP e Reforma Administrativa do Território.
De todos, o dossier TAP foi um falhanço absoluto ao não conseguir privatizar a empresa e expondo-a ao risco de falência por não poder ser ajudada na sua falta de liquidez pelo Estado, segundo as regras comunitárias.
O dossier RTP foi um quase falhanço, pois se acabou por deixar as coisas diferentes em relação ao que encontrou, acima de tudo do ponto de vista financeiro em que a RTP nos custa a todos quase metade do que  custava (cerca de menos de 100 milhões de euros a menos) mantendo no geral os serviços que tinha, toda a novela de avanços e recuos e mudanças de direcção nos objectivos da empresa foram um falhanço político absoluto.
O dossier da Reforma Administrativa foi aquele onde acabou por ter maior sucesso, já que conseguiu diminuir cerca de 1000 freguesias (sobrando ainda umas 3000...) e, muito mais importante, acabou com cerca de 200 empresas municipais que apenas andavam a criar dívidas ao Estado. E deixou os municipios intactos, num medo de afrontar os presidentes de Câmara. Ou seja, só fez meio serviço...
Mas onde, quanto a mim, Relvas mais falhou, foi naquilo que não se fala, foi na coordenação política do Governo. Que andou muito tempo, quase sempre, descoordenado, cada um falando e actuando como entendia e cada partido dizendo o que entendia sem se preocupar com o outro e com o todo (o Governo). Relvas deveria ter sido o homem que deveria ter evitado isso. E, aí sim, falhou em todo o campo.

2. O TC é inconstitucional no meu entender. Passo a explicar. Não me parece constitucional que um órgão não executivo e não eleito por sufrágio universal venha interferir nas políticas executivas de um Governo eleito universalmente. Tenho a certeza que a Constituição deve falar em separação dos poderes algures... E enquanto for constitucional o TC dizer que é inconstitucional mudar tudo o que nos colocou na crise actual, não há salvação possível. Disse um dos juízes  a determinada altura, que é a lei de execução orçamental (no fundo, a realidade do país) que se tem de ajustar à Constituição e não o contrário. Ou o senhor não percebeu o que disse, ou o país anda completamente maluco...

3. O Governo pós-Relvas só pode ser melhor, por razões várias que me vou escusar de alongar aqui. O Governo pós-relatório do TC adiado dias a fio e transmitido em prime-time televisivo quais prima-donas a quererem os seus 15 minutos da fama, esse vai ter a tarefa mais complicada. Já não bastava o Governo andar a resolver os problemas que o Sócrates criou, agora ainda tem de resolver os problemas que o TC cria também. Depois de 6 anos de Sócrates a afundar-nos em despesa constitucional, temos agora 2 anos de TC a defender a inconstitucionalidade de se cortar a despesa constitucional.

O circo, esse prossegue dentro de momento. O palhaço pobre já chegou junto a um microfone: "Eu estou disponível para substituir o Governo" mas "quem criou o problema que o resolva"...

2013/03/29

Pensamentos do oriente...

Enquanto tenho aqui estado, afastado da catadupa de noticiários e apenas seguindo os sound-bytes à distância de um fuso de +8 horas, algumas ideias têm feito sentido, pelo menos na minha cabeça...

Pedro Passos Coelho nunca irá remodelar o Governo enquanto o Tribunal Constitucional não se pronunciar. E a própria continuidade dele estará também dependente do tipo de pronuncia que o TC fizer. Se for a versão suave, talvez continue. Se for a versão hard, cortando tudo a torto e a direito, então provavelmente demite-se.

Vamos por cenários.

1º Cenário: O TC impõe alguns cortes, mas no geral o Orçamento de Estado mantém-se.
O mais natural é que alguns ministros se demitam, nomeadamente Vitor Gaspar e isso force PPC a remodelar - a questão é quão profunda será a remodelação, isto é, se serão apenas alguns nomes novos numa estrutura semelhante ou se, para além de novos nomes, altere a orgânica profundamente. A oposição, evidentemente, vai protestar e pedir a demissão do Governo, mas com Cavaco a Presidente só um cataclismo o irá fazer accionar a "bomba atómica", ele que sempre se bateu pelo cumprimento dos mandatos e sempre se pronunciou contra todas as vezes que um PR dissolveu a AR (seja Soares no seu caso de 1987, seja de Sampaio nos casos de Guterres e Santana Lopes em 2002 e 2005).

2º Cenário: O TC corta a fundo, desvirtuando o OE.
O mais natural é PPC demitir-se. Mas irá Cavaco convocar eleições? Poderei estar enganado, mas talvez seja por estar  aqui em Macau, acho que no jogo das sombras da política há muitos movimentos para que o PR convide o PSD a apresentar outro Primeiro Ministro. E há muito que há uma corrente interna do PSD que gostaria de colocar Rui Rio, em fim de mandato no Porto onde não pode concorrer mais, no cargo - e penso que este era um nome que agradaria ao próprio PR. Só falta perceber qual a posição do CDS nesse caso - mas a verdade é que vários dos principais dirigentes do CDS fizeram parte do executivo de Rio no Porto nestes 12 anos, sempre houve muita proximidade, pelo que me parece que a maioria parlamentar estaria assegurada. Dificilmente Cavaco faria o que fez Sampaio, derrubando uma maioria estável na AR e colocando no poder Sócrates (ou o que restasse da tralha socrática que daqui até umas possíveis eleições legislativas trataria de retirar Seguro do caminho).

Por último, o regresso do emigrante parisiense. Veio para ser candidato a PR. Não vi a entrevista, mas vi breves resumos e alguns comentários. E ficou clarinho como a água que escolheu como alvo Cavaco Silva e não PPC ou Seguro. E semanalmente vai montar a estratégia com o apoio da RTP para se lançar e antecipar-se assim à direita que ainda não tem candidato - o mais natural seria Durão Barroso mas que poderá estar a sonhar com a ONU e não querer hipotecar essa hipótese com uma candidatura presidencial extemporaneamente.

E entretanto, as autárquicas aproximam-se a passos largos. Se forem a 29 de Setembro, significa que as equipas estarão montadas até Junho e que a campanha decorrerá até Julho. Agosto é mês morto e Setembro já decide muito pouco eleitoralmente...

Um ano louco pela frente, que só com paciência de chinês será possível ultrapassar...

2013/01/28

Os arquitectos, a OA e o Governo

Ao ler a entrevista que o presidente da OA deu ao Expresso este fim de semana, fiquei espantado com o título: "Os arquitectos estão zangados com o Governo"!

De facto, é preciso ter lata para vir dizer uma coisa destas - mais palavra, menos palavra, que nisto dos títulos os jornalistas são, vá lá, muito "criativos" - ou então estar alheado da realidade.

Os arquitectos andam zangados? Sim. Mas muito mais consigo, caro colega, do que com o Governo. Em especial, este, que levou com um país-bomba na mão e que tem agora de resolver o problema dos arquitectos (e, já agora, de outras classes profissionais do sector) que os anteriores Governos e as Ordens (não exclusivamente a dos Arquitectos) criaram ao longo dos últimos 10 a 20 anos entre tantos outros e se calhar tão ou mais urgentes problemas...

Porque estaria eu zangado com este Governo se o problema já vem muito antes dele? Não emigrei eu já em 2006? Porque razão o fiz? Para ir conhecer as praias de Angola? Não me parece... Terá sido, isso sim, porque a crise já se notava no sector da construção, logo no sector dos serviços de arquitectura. E em 2008 alastrou ao sector do imobiliário, com os bancos a deixarem de financiar a compra e a aumentarem os juros e spreads progressivamente, dando assim a machadada final no sector. Que fez a OA neste anos? Zzzzzzzzzzzzz...

É certo que os arquitectos gostaram de Sócrates - ou, mais concretamente, é certo que cerca de 100 arquitectos e os seus ateliers gostaram da "festa" das escolas de Sócrates e da Maria de Lurdes - mas isso apenas veio ajudar os maiores gabinetes a manterem-se abertos, porque dos pequenos, como eu, que trabalho "a solo" ou em pequenas parcerias, nem migalhas... Mas, como ficou demonstrado nas audições parlamentares à "festa" da Parque Escolar, isso foram cerca de 100 escritórios de arquitectura que beneficiaram no país todo. Dando de barato que cada um tem 2 arquitectos, seriam pouco mais de 200 arquitectos pela "festa". Sabendo que há cerca de 20.000 inscritos na OA, isso representa uns meros 1% dos associados. Os outros 99%, ficaram a assistir e a pagar a "festa" com os nossos impostos...

Aos anos que se sabe que há arquitectos a mais.

Em 1996, quando eu me licenciei, recebi o número 6574. Hoje já ultrapassam os 20 mil (penso que até já são mais de 22 mil inscritos). À época, meados dos anos 90, havia trabalho para todos e havia sítios do país com poucos ou nenhuns arquitectos. Mas por volta do ano 2002 as coisas começaram a piorar - crises económicas iniciaram com o Governo de Guterres (quem não se lembra da criação do Pagamento por Conta da Manuela Ferreira Leite e do país de tanga de Durão Barroso?) e aprofundaram-se ao longo da década seguinte, apenas camuflada pelo investimento público (selectivo, como vimos atrás) promovido em particular pelo Governo de Sócrates. Julgo, por isso, que o número ideal de arquitectos para Portugal deverá rondar os 10 mil, cerca de 0,1% da população do país. Pelo menos, a uma média de 800 arquitectos por ano que foram saindo das universidades, esse deveria ser o número de arquitectos que havia por volta do ano 2000, quando todos tinham trabalho e, apesar de não sermos muito bem pagos, sobrevivíamos.

E que fez a OA quanto a esse assunto? Dificultou o acesso à Ordem com mais exames e cursos, mas nada fez quanto à proliferação de cursos de Arquitectura. E que fizeram os Governos? Autorizaram a abertura de mais cursos e mais vagas em Arquitectura. (Em comparação, o que diz a Ordem dos Médicos sobre novos cursos e mais vagas? Não...)

Agora, o presidente da OA vem dizer que os arquitectos andam zangados com o Governo.

É evidente que ninguém, arquitecto ou não, está satisfeito com o que se passa. Mas tão evidente quanto isso é que o Governo não tem, neste momento, dinheiro para nos pôr a trabalhar, directa ou indirectamente - isto é, lançando obras públicas ou financiando/comparticipando obras particulares. Por isso é um absurdo achar que este Governo tem de resolver, já, o problema que os anteriores Governos - com a CUMPLICIDADE e PARCERIA da OA - criaram.

É evidente que o mundo onde vive o presidente da OA é outro. Quanto mais não seja, as senhas de presença que receberá enquanto presidente da OA (34.545,00€, segundo o Orçamento da OA para 2012) devem ser superiores ao que 90% dos arquitectos portugueses auferem num ano de trabalho normal. Mas, pelo menos, pedia-se ao presidente menos frases baratas, menos frases feitas e muito mais actividade: por exemplo, fechando a "torneira" das universidades (assunto sobre o qual não me lembro de ver ou ouvir a OA dizer nada há muito tempo) e actuando mais em parceria com o Governo de forma a exportar o nosso sector de serviços - exportar mesmo, não como fazem alguns dos grandes nomes da arquitectura portuguesa que numa entrevista dizem estar cheios de trabalho "lá fora" e ao mesmo tempo dizem que estão a ponderar encerrar os gabinetes em Portugal por não terem trabalho, sinal de que o serviço de "lá de fora" não é feito cá em Portugal, logo não há exportação de serviços, há execução de trabalhos em filiais estrangeiras, sediadas noutros países e, provavelmente, com arquitectos estrangeiros a trabalharem lá - como forma de aumentar a autonomia e rentabilidade dos arquitectos em Portugal.

É que reconhecer que não há dinheiro no Governo para as obras e achar que se pode encomendar os projectos ("não custa mais de 3% ou 4%" do valor da obra) é de quem não tem consciência de como as coisas funcionam... Os projectos fazem-se quando há uma obra a fazer, a obra faz-se a partir de uma necessidade específica de um determinado momento - e mesmo assim, entre o momento em que o projecto é feito e o momento em que a obra começa, esse espaço de tempo é o bastante para se alterar, por vezes radicalmente, o projecto, imagine-se então o que seria fazer um projecto hoje para uma obra que poderia vir a ser executada apenas daqui a 5 anos: a legislação do sector profissional onde se insere a obra pode mudar, o PDM do local pode mudar, as necessidades espaciais podem mudar (por exemplo, prever uma escola para 2000 alunos e depois, devido às migrações, ter apenas 1000 alunos...) e tudo pode mudar! Foi assim que este país chegou a este ponto de pré-falência: a atirar dinheiro para cima da fogueira dos problemas; queimado o dinheiro, o problema mantém-se! É inadmissível que o presidente da OA venha dizer estas coisas em público. Nestes momentos, tenho quase tanta vergonha de ter um presidente assim como muitos advogados têm de ter um bastonário como o deles...

Perdoem-me este desabafo que já vai longo, mas ler este tipo de discurso por parte de quem é parte do problema e nada faz para encontrar soluções, tira-me do sério! O que vale é que, a ver pela reacção nas redes sociais, não sou o único a pensar assim - diria mesmo mais, o presidente da OA é que é a ilha no meio do oceano...

2013/01/01

2013, o ano da esperança

Esperança num ano melhor profissionalmente, politicamente e academicamente.

Profissionalmente, porque a minha área profissional atravessa a mais grave e longa crise desde o 25 de Abril, que se reflecte de forma dramática no trabalho disponível para mim e para todo o sector. Espero que 2013 seja o ano do turn-over, tenho esperança que o sector vai começar a recuperar.

Politicamente, porque acredito que este será o ano de viragem política na CM Guimarães, quando em Outubro o André Coelho Lima vencer as autárquicas. Este é um combate no qual estou envolvido há já 16 anos, desde as autárquicas de 1997 e que tenho esperança de ver o sonho concretizado porque nunca, nestes 16 anos, esteve tão bem preparado o PSD para vencer este município - tem uma equipa coesa e tecnicamente válida e preparada, um conjunto de ideias e ambições para Guimarães e  capacidade de gerir os desafios do futuro que se vão colocar.

Academicamente, terminando o mestrado que comecei no fim de 2011 e que, tenho esperança que me abre novas portas, janelas de oportunidade para o futuro mais próximo, se não em Portugal, que seja em Macau...

Espero que seja um ano cheio de coisas boas, saúde e optimismo, porque para coisas más, derrotismo e desesperança já nos bastou 2012...

2012/12/31

Adeus, 2012

E que não regresses tão cedo, porque não deixas saudades.

No país, o que havia para correr mal, correu mesmo mal e nos piores momentos, corolário da Lei de Murphy! Nem vale a pena falar mais sobre o assunto...

O que fica de bom? Uma CEC2012 que, se não ajudou muito, pelo menos deu animo a quem esteve por Guimarães. O meu receio é a factura que, de certeza, vai aparecer em 2013...
O título do FC Porto que, qual relógio suíço  vai somando pontos, vitórias e títulos de forma consecutiva, ano após ano, afrontando os poderes centralistas lisboetas e atemorizando seguidores de outros clubes.
E o meu mestrado concluído na sua componente lectiva em Julho, deixando agora espaço para avançar para a dissertação, mas ficando desde já a pós-graduação despachada!

E houve saúde, pelo menos, mais crise de vesícula,  menos pingo do nariz... Foi fraco ano, mas passou-se. 366 dias depois, estou pronto para outro!

2012? Game over!

2012/12/28

O Porto, o Norte, o centralismo de Lisboa e os políticos

Alguns comentários sobre a sugestão de Paulo Rangel de se fazer "um 15 de Setembro conta o centralismo do Governo" na Avenida dos Aliados.

1. O Porto
Tem vindo a perder peso no Norte, quer porque os concelhos limítrofes se impuseram no seu estatuto de dormitórios atraindo imensa população, quer porque muitos dos principais representantes da cidade foram deslocalizados para outras zonas, nomeadamente para a capital, quer ainda porque o eixo Guimarães-Braga ganhou um enorme peso nos últimos 20 anos, metropolinizando-se (se é que existe este palavrão) e autonomizando-se em muitas das suas necessidades do Porto.
Mas o Porto sempre foi centralista no Norte, como se percebe desde a questão do Vinho do Porto - que é produzido no Alto Douro e armazenado em Gaia - até ao pouco interesse que tantas vezes demonstrou ter sobre o restante território nortenho, olhando mais para o restante território como extensões do que como outras partes importantes no todo.

2. O Norte
Não há norte político, apesar de haver um norte geográfico  um espaço mais ou menos bem delimitado da Galiza até aos municípios que fazem a encosta sul do Rio Douro. Mais, este norte, se bem explorado, poderá até incluir a própria Galiza, num renascimento do que foi a ideia do Eixo Atlantico do Noroeste Peninsular e que está, basicamente, moribundo.
A sua força poderia ser enorme se os municípios se soubessem unir e trabalhar em conjunto para esse fim. No entanto, é enviesado o sentido da coisa e todos se querem apropriar desta ideia de serem os líderes do norte e acharem que os vizinhos só estão na coisa para tirar vantagens sobre eles, para que esta grande região se ande a degladiar entre si apenas com o beneficio do centralismo de Lisboa.

3. O centralismo de Lisboa
É uma realidade, não há como contornar a questão. Desde há muito que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem para os Governos que centralizam o grosso do investimento na área da Capital, que procuram puxar para lá todos as iniciativas/entidades/organismos de algum sucesso fora de lá e que insistem em não olhar para o país como um todo.
Casos como o recente desejo de António Costa de levar para o Tejo a corrida de aviões da Red Bull (que movimentava cerca de 700 mil a um milhão de espectadores num fim de semana na zona ribeirinha do Douro) foi o último de muitos outros exemplos, que passam de sedes de empresas importantes até ao encerrar de delegações ministeriais no Norte e obrigação de deslocação a Lisboa para se tratar dos assuntos e, naquele que para mim é o mais grave dos centralismos: a condensação de grandes investimentos em Lisboa contra as migalhas do resto do país. Vejam-se os casos dos últimos grandes investimentos do Estado português: a rede de estradas (uma miríade de autoestradas, muitas ainda grátis, na zona de Lisboa, várias paralelas entre si, com obras de elevadíssimo valor de execução não só por causa do preço dos terrenos mas pela megalomania com que foram executadas), a Expo-98 (que poderia ter sido feita em muitos outros pontos do país) ou até o Euro-2004 onde Lisboa recebeu 2 estádios novos que juntos custaram quase tanto como os outros todos juntos).

4. Os políticos
Os do norte, hoje, não têm peso. Rui Rio perdeu-se em batalhas citadinas e não saiu do seu território, não aproveitou a credibilidade que tinha externamente e que conquistou pelo rigor e disciplina económicos que levou para a CM Porto para se impor. Menezes esteve sempre na peugada de Rui Rio, com um olho no país e outro na CM Porto. Aqueles que têm chegado ao Governo ao longo dos anos oriundos do Norte não têm sabido ser seus amigos e, quando chegam a Lisboa, rapidamente trocam os discursos pró-norte por práticas centralistas, beneficiando a região de Lisboa em detrimento do Norte.

5. Paulo Rangel
O ideia que Paulo Rangel desenvolve não é nova nem é má. Os motivos que aponta é que não são bons. Por causa de um programa de televisão? Por causa de uma administração da Casa da Música ter menos um milhão para gastar no próximo ano (quando lá fui vi milhares de Euros gastos em programas multicoloridos, livretos, tudo em papel grosso e caro e com elásticos a envolver, cheios de rócócós e coisas sem nexo onde se via que dinheiro ali, não faltava) ou por causa da privatização da ANA? Não faz sentido, isto é "non-sense", é "lana caprina" e não o fulcral, não o essencial, não os verdadeiros assuntos de estado que urge discutir e defender.

Em conclusão, a critica é, quanto a mim justa porque verdadeira, mais em relação ao Norte que ao Porto propriamente dito.
Mas os argumentos devem ser revistos, bem como a forma e o local onde a critica é feita.
Enquanto políticos como Paulo Rangel não perceberem que devem primeiro criar uma estrutura unida e forte no Norte, agregando outros políticos do Norte todo, agregando até a Galiza, agregando as ideias que o Norte tem e precisa de defender e só depois então embarcar nessas manifestações populistas que para resultarem devem, primeiro, ser sentidas pelas populações que nelas terão de dar corpo e voz, nunca iremos a lugar nenhum e continuaremos a ser um alvo fácil do centralismo de Lisboa que continua a dividir (o norte) para (melhor) reinar!

2012/12/10

Do Nóbel da Paz à UE

Apesar de alguma contestação de uma certa esquerda ideologicamente preconceituosa contra o projecto de unificação europeia que manteve o continente europeu sem guerras desde 1945, achando que alguns arrufos que eles próprios andam a provocar em alguns países que enfrentam algumas crises financeiras são o suficiente para não haver paz, é muito justo que a União Europeia seja premiada.

E, para nós portugueses, deveria ser motivo de orgulho que seja um português a presidir à mesma neste momento em o Nobel é entregue, conseguindo até (que ninguém duvide que foi Durão Barroso a conseguir) fosse um grupo português a tocar uma peça de Marceneiro reinventada de forma moderna e interpretada brilhantemente em português.

A União Europeia conseguiu diminuir o fosso entre ricos e pobres na Europa (pensem no que eram os países pobres em meados do século XX e o que eram os países ricos, e o que ambos são hoje), conseguiu terminar com os desejos de hegemonia militar que grassaram o centro da Europa desde os inícios do século XX até aos seus meados, conseguiu ser uma "arma" excelente contra a guerra fria que ameaçou a paz não só na Europa, como no mundo, e conseguiu evitar que o comunismo avançasse pela Europa dentro e ainda "conquistou" a democracia para os países que sob o jugo da velha URSS caíram com o peso do muro derrubado de Berlim. Se calhar é por estas duas últimas razões que a tal esquerda preconceituosa não gostou deste prémio Nobel da Paz atribuído à UE...

É, por isso, justo o prémio, muito justo!
Se hoje vivemos numa Europa de liberdade, de facilidade de circulação, de desmilitarização constante, de maior atenção ao social e à sociedade - isso deve-se ao projecto da União Europeia não só como ela é hoje, mas também das suas diversas etapas que atravessou (CEE, Benelux). É muito bom viver numa Europa que está em paz desde 1945, ou seja, 67 anos de paz - talvez o maior período de paz no nosso continente desde o Renascimento...
E foi ainda com muito orgulho que vi portugueses como protagonistas da cerimónia.

2012/12/04

Camarate, 32 anos depois

O assassino de Francisco Sá Carneiro aconteceu há 32 anos atrás. Poderia ser hoje outro o Portugal que temos. Infelizmente, de propósito ou como "dano colateral", não deixaram Sá Carneiro continuar o seu Governo e a sua Vida dedicada à causa pública, à Democracia, a Portugal.


Nota final para um dos seus maiores adversário políticos. Hoje mesmo, dia dos 32 anos do seu assassinato, escreveu no DN uma crónica que demonstra bem a sua baixeza política: nem uma palavra sobre o assunto, antes deixa um aviso (ou ameaça?) ao actual primeiro-ministro, "Tenha, pois, cuidado com o que lhe possa acontecer. Com o povo desesperado e, em grande parte, na miséria corre imensos riscos." É isto que distingue o grande Homem que foi Sá Carneiro, como se vê no vídeo acima, dos pequenos políticos e politiquices que outros promovem ainda nos dias de hoje.

2012/11/07

O melhor ainda está para vir...

... disse Obama no discurso de vitória (...the best is yet to come!). Ou a prova maior da desilusão do primeiro mandato.

Obama ganhou, mas não esmagou, não convenceu. Foi mais o mal menor, antes ele que o republicano que achava que as janelas dos aviões deviam abrir. Foi mais uma promessa de campanha fora dela - prometer que o melhor ainda está para vir é talvez a mais difícil das promessas que fez de cumprir.

Obama ganhou mas deixou um país profundamente dividido e perdeu o controlo do Congresso, pelo que o seu segundo mandato será novamente muito complicado e, muito provavelmente, inconsequente como o primeiro. Depois de um Hollande que prometeu afrontar a Sr.ª Merkel e agora a apoia em grande e faz as políticas que aqui em Portugal a esquerda não deixou que Passos Coelho fizesse, vamos nos próximos anos assistir a muitas capitulações do Obama que, para história e depois dos grandes feitos que prometia a toda uma imprensa de esquerda que esperava dele ser o novo "Messias", ficará apenas como o primeiro presidente não-branco daquela nação...

Não sei o que vê a imprensa europeia de tão grande estadista em Obama. Aumentou o défice, aumentou a dependência externa do país em relação ao petróleo, aumentou o desemprego, não tirou o país da crise (apenas a mitigou). Isto é um grande estadista? I don't think so...

E começou já a campanha para 2016...

NOTA - E não estou a dizer que queria que ganhasse o Romney porque acho que não seja melhor do que Obama, apenas penso que Obama não é tão bom como o querem pintar.

2012/11/05

A 24 horas das eleições americanas...

...os resultados são imprevisíveis estando todas as hipóteses de pé: re-eleição de Obama com vitória deste no colégio eleitoral e votos, re-eleição de Obama com vitória no colégio eleitoral e derrota nos votos, vitória de Romney no colégio eleitoral e derrota nos votos e vitória de Romney no colégio eleitoral e votos.

Sabemos, da re-eleição de G.W.Bush (filho) que o sistema americano é muito complexo e que nem sempre a vitória em votos directos equivale a uma vitória no "colégio eleitoral" que é quem, de facto, elege o presidente.

E como muitas poucas vezes o presidente em funções não foi re-eleito, é muito estranho que a tão poucas horas da votação (a uma terça-feira!) ainda estejam todas as hipóteses em aberto e haja um empate técnico nas sondagens. É desde já, não uma derrota, mas um enfraquecimento do mandato do próximo presidente, com todas as consequências que isso pode ter para o nosso país e para a Europa - um presidente americano mais fraco ou mais fragilizado internamente irá, no meu entender, procurar robustecer a sua posição e descurar as relações bi-laterais, será mais ego-estatal do que interessado no relacionamento com o resto do mundo e com a Europa em particular.

E isso, atendendo à grave crise que atravessamos, é duplamente negativo.

Obama foi uma desilusão para toda uma esquerda que pensava, novamente depois de 3ª via de Blair, que havia soluções à esquerda para a crise que atravessamos há mais de uma década. Não foi o Messias e nem tão pouco conseguiu afirmar as suas políticas no seu país que está ainda, a 24 horas das eleições, mais virado para o substituir por um aparentemente fraco candidato como Romney do que o manter no cargo.

Que sirva de reflexão interna também isso: substituir agora Pedro Passos Coelho por Seguro iria resolver o problema (ou iria agravar?), será Seguro o homem que tem mais soluções milagrosas de esquerda para resolver o problema económico que a esquerda criou e agravou? Acompanhemos, por isso, com apreensão, o que se vai passar nos EUA amanha e o que se vai passar por cá a seguir...

2012/10/05

Que 5 de Outubro?

Ainda não percebi porque se comemora o 5 de Outubro. A sério! Comemorar a democracia não será, porque na monarquia já existiam partidos e eleições. Por isso, só posso ver isto como uma manifestação de poder de uma certa esquerda e de certas sociedades (hoje pouco) secretas que não faz sentido nenhum continuar.

Imagem 31 da Armada
Em especial depois do que se passou hoje.

Pendurar uma bandeira de pernas para o ar, sinónimo de pedido de auxilio internacional no "velho" código dos tempos de guerras, é algo que não lembra a ninguém. Acredito que não foi feito intencionalmente. Mas todas aquelas personalidades estarem a ver a bandeira de pernas para o ar e não pararem, não corrigirem a situação, é algo que não percebo também!

Enfim, comemore-se o inicio da Nação no dia em que ela terá nascido - 24 de Junho! - ou quando muito comemore-se a restauração da sua independência - 1 de Dezembro! - mas deixem-se de parolices (ia dizer algo mais forte...) e ide trabalhar pelo futuro deste país se querem comemorar alguma coisa em 2013 porque da forma como isto está a ir, com a extrema esquerda a ter todo este tempo de antena, arriscamo-nos que, mais ano, menos ano, não seja só a independência financeira que perdemos...

2012/10/01

Dia Mundial da Arquitectura


É hoje, 1 de Outubro.

No mundo, festeja-se, celebra-se, comemora-se este dia.

Em Portugal, pelo menos a norte, a Ordem dos Arquitectos vai prolongar o dia pelo resto do mês com o Arq Out, um programa de actividades que durante todo o mês terá  actividades diversas no grande Porto para promover a arquitectura.

Em todo o caso, o meu post hoje tem mais a ver com o alerta este dia deveria ser. Porque, na realidade, mais do que comemorar, hoje deve ser um dia para alertar a sociedade dos problemas que esta classe, que é a minha, enfrenta.

Há mais de 20 mil profissionais no país. Cujo sector da construção atravessa a mais grave crise de que há memória. Só para se perceber o pouco que se constrói em Portugal hoje, fica um exemplo: estou a tratar da legalização de uns muros de uma casa construída em 1997; quando consultei o processo original da casa, de 1997, vi que havia entrado em Setembro e era o processo n.º 5980 da CM de Guimarães; em Maio passado, dei entrada de um processo de licenciamento, com o n.º 180... ou seja, em 9 meses de 1997 havia quase 6000 licenciamentos e este ano em 5 meses havia menos de 200...

No entanto, continuam a sair anualmente centenas de novos arquitectos das dezenas de cursos que estão a ser ministrados nas universidades portuguesas.

Já alguém parou para pensar nisto um pouco? Os pais dos jovens que lá entram hoje não vêm o que se passa, não lêem jornais, não vêem as noticias? O Ministério não vê o que se passa? E a Ordem não consegue fazer nada sobre o assunto que não seja criar mais e mais dificuldades em entrar na Ordem? Que país é este que continua a formar profissionais cujo futuro na sua imensa passa por emigrar ou encontrar trabalhos em áreas diferentes da arquitectura e nada faz para corrigir isso?

Que futuro para os arquitectos portugueses em Portugal? Ganham prémios internacionalmente, são conceituados, mas no próprio país não só são vistos, na sua maioria, como os "gajos que fazem uns desenhos e cobram uma pipa de massa" como não temos quase serviço hoje em dia. A regeneração urbana não avança porque, por um lado, o Estado não tem dinheiro para regenerar os espaços públicos e por outro lado os privados ou não têm dinheiro para avançar com projectos de investimento ou não têm confiança para investir, sabendo que os bancos quase não emprestam para crédito à habitação e que com o desemprego e falta de confiança na economia poucos têm coragem e possibilidade de comprar hoje em dia.

É uma encruzilhada o futuro da arquitectura em Portugal. Hoje não é dia para comemorar nada. Hoje, para mim, é dia para reflectir sobre o nosso futuro: enquanto classe, enquanto profissionais e enquanto país!

2012/09/22

Ainda da regeneração e reabilitação urbana

Algumas conclusões a que cheguei depois de assistir ao Seminário Internacional de Regeneração e Reabilitação Urbana.

1. Há muita confusão entre REGENERAR e REABILITAR e outras palavras como requalificar e reconstruir. São tudo conceitos próximos e parecidos, mas não iguais e sinónimos. Obras como a REQUALIFICAÇÃO do Largo do Toural e Alameda em Guimarães foi, subrepticiamente, apresentada como REGENERAÇÃO. Obras como a RECONSTRUÇÃO do Chiado em Lisboa foi apresentada, subrepticiamente, como REABILITAÇÃO. Não o foram assim designadas nos documentos oficiais nem elas correspondem ao que quiseram, para o efeito, os oradores fazê-las passar.

2. Reabilitação pode ser dos espaços públicos ou do edificado, podendo este ser público ou privado. Normalmente não há investimento privado sem que o público não avance primeiro com a reabilitação do espaço público e por vezes até que crie pontualmente novos equipamentos públicos em edifícios reabilitados. O problema é que hoje não há dinheiro para o investimento público e não há crédito para o investimento privado e não há procura suficiente para rentabilizar os investimentos. E o problema da "Lei das Rendas" continua por resolver...

3. Regeneração depende das políticas e planeamento, sendo que o planeamento político é fraco e quase inexistente.

4. Regeneração pode ser casual e fragmentada, sendo que nestes casos não resulta porque se destina normalmente "turistificação" e à "museificação" dos espaços, deixam de ser para quem os habita e passam a ser para quem os visita, perdendo com isso a vida própria dos espaços e a sua característica própria.

5. O conceito "shrinking cities" vai passar a ser mais usado e ouvido falar no futuro. Se há cada vez menos gente nas nossas cidades (Porto perdeu 90 mil pessoas em 20 anos, Lisboa perdeu 250 mil pessoas nesses 20 anos) então há edificado a mais, que muitas vezes é melhor substituido por um vazio do que por outro edifício novo - a Alemanha tem usado esta teoria para refazer cidades do leste alemão com algum sucesso.

6. As cidades em Portugal com centro histórico estão a sofrer do efeito de "cidade donut", ou seja, os seus centros esvaziaram-se e nas radiais desenvolveram-se vários novos centros, pólos de atractividade que a "cidade do automovel" ajudou a consagrar.

7. Tem de haver uma mudança de paradigma na construção da cidade: tem que se fazer cidade a partir da cidade (existente) e não sobre a cidade (existente) como durante milhares de anos aconteceu (cidades por camadas "geológicas").

8. A cidade tem de ser feita COM as pessoas e não apenas PARA as pessoas. A participação através de consultas à população ou através dos orçamentos participativos vão ser, sem qualquer dúvidas, cada vez mais frequentes no futuro.

2012/09/16

Que Portugal queremos?

Tenho resistido a comentar, de cabeça quente, os desenvolvimentos dos últimos dias, da última semana, em Portugal após mais uma positiva avaliação dos nossos credores ao nosso programa de assistência financeira.

Tudo porque eu próprio me sinto confuso e dividido com o que se passa.

Primeiro porque não sei, não vejo alternativa credível para o que actualmente se passa quanto à contenção financeira que vivemos e necessidade de alterar estruturalmente o nosso país, de mudar hábitos de vida e de consumo. Por mais que as pessoas não queiram perceber ou se tenham esquecido, Portugal viveu durante os 6 anos do consulado de Sócrates do crédito: a nossa economia não produzia nem crescia o suficiente para gerar receitas para o Governo fazer todas as obras que fez nesse período de tempo, tendo para isso recorrido a várias formas de crédito (de empréstimos obrigacionistas a negociação directa de dívida com outros países) que fez com que o país, no seu todo, tivesse ficado a dever muito mais dinheiro do que aquele que alguma vez conseguiria gerar para pagar de volta os credores - para quem não se lembrar, a dívida pública era em 2004 de 90 mil milhões e em 2011 de 175 mil milhões - ou seja, quase duplicou nesse período de governação... Ora, como todos sabemos, quando pedimos emprestado temos de pagar de volta sob pena de perdermos os bens adquiridos (e até outros se estes entretanto se desvalorizarem) mas como neste caso os bens não são móveis nem sequer transportáveis (trata-se de escolas, estradas,  hospitais, coisas assim) tudo se complicou. Mais ainda quando se sabe do tipo de negócio (as famigeradas PPP's e a Parque Escolar e outras coisas que tais) que foram utilizadas para se investir - coisas que não geram receitas, que não se pagam nem são auto-sustentáveis.  E negociadas da maneira que sabemos...

Depois, porque não vendo alternativa, também não sei se esta é a melhor maneira de o fazer. Daí perceber bem as manifestações de ontem - mais do que outra coisa qualquer, foi o perder a esperança que muita gente ontem manifestou (outros, os mascarados dos petardos, tomates e garrafas atiradas às autoridades, foi o renascer da esperança de pela força fazerem a tão sonhada "revolução"...) e foi abrir a válvula da pressão acumulada neste último ano de tantos sacrificios feitos por todos - como dizia já Sá Carneiro, algures no pós-revolução, os "homens só se determinam e animam quando sabem o porquê e para quê dos sacrifícios que lhes pedem" - e também uma mensagem ao Governo sobre as últimas medidas tomadas.

Sim, porque aquilo que mais quebrou psicologicamente os portugueses - e por mim também falo - foi pedir mais sacrifícios a uns e liberar outros desses sacrifícios, isto é, a questão do aumento dos descontos da segurança social para os trabalhadores e a diminuição da TSU para as empresas. Percebo ambas as ideias, mas discordo de uma delas. Sei que a taxa da segurança social tem de aumentar para os trabalhadores (é matemática simples e pura: somos cada vez menos a trabalhar por diminuição de emprego e de população activa com idade para isso, há cada vez mais apoios sociais como reformas, subsídios de desemprego e RSI's a pagar, logo é evidente que cada um tem que contribuir com mais) mas o momento não é o ideal, menos ainda no valor proposto (mais 60%  de uma vez). Por outro lado, percebendo a ideia que está por trás da proposta das empresas pagarem menos TSU, julgo que no momento em que se pede sacrifícios a todos não se pode dizer a um grupo em particular que esses não têm de fazer sacrifícios e até recebem um bónus. Isso foi o choque. Felizmente, do que vou percebendo das várias declarações dos membros do Governo, há espaço para em Concertação Social os empresários abdicarem dessa baixa de valor e dessa forma os trabalhadores "apenas" terem de contribuir com a diferença daí  resultante.

Mas como entretanto o mal está feito, agora será preciso mais para "adoçar" a boca de todos para se sentirem mais satisfeitos. Para encontrarem novamente determinação de realizar os sacrifícios pedidos e necessários.

Daí a minha pergunta: que Portugal queremos?

Aquele que Mário Soares, Manuela Ferreira e todos os dessas gerações nos trouxeram até aqui? São esses os sábios e experientes que nos vão ajudar a sair deste buraco onde nos meteram? Não brinquem comigo...

Ou queremos um diferente, que esteja a mudar estruturalmente o país, apesar da Constituição que temos? É experimental, sim. Pode não resultar, é verdade. Mas entre as experiências de 1974-2011 e isto, eu ainda prefiro isto. O Estado tem e está a emagrecer. Ainda não está tudo feito, mas este Governo tem apenas um ano de vida! Esperavam resolver os problemas conjunturais e estruturais de mais de 30 anos de má governação e opções com um ano de Governo? São utópicos ou lunáticos, então. Já li e ouvi várias pessoas dizerem que isto não se resolve numa legislatura, nem numa década e só muito dificilmente se resolverá numa geração (ou seja, 25 anos) e concordo em absoluto. A questão é que em 37 anos de Governos as coisas só pioraram. E este Governo, para o bem ou para o mal, teve a coragem de iniciar cortes onde a factura era mais pesada: nos ordenados que paga aos seus mais de 700 mil funcionários, nas áreas cujo peso é maior na factura anual (saúde, educação, obras públicas) e apesar de ainda ter muito caminho a percorrer, a verdade é que já conseguiu mais que todos os anteriores fizeram que apenas engordaram e aumentaram "o monstro" do défice..

Este é o Portugal que quero do futuro - com menos Estado, com mais regulação.  Por exemplo, ainda hoje discutia no Facebook sobre o facto de não haver regulação nas vagas dos cursos das universidades, ao constatar que na minha área há mais de 20 mil arquitectos inscritos na Ordem e que o sector da construção está numa crise de tal forma que primeiro que o mercado absorva todos estes profissionais, vai demorar anos e anos. O Governo tem condições de regular ou de ter organismos que o façam o número de vagas desta profissão, por exemplo, pois é o Ministério que autoriza o funcionamento dos cursos, ou poderá criar um organismo que faça esse tipo de trabalho. É uma irresponsabilidade as universidades estarem a abrir tantas vagas de arquitectura. Ou de ensino. Ou de advogados. Porque são quadros, são cérebros, que ou emigram ou só uma pequena parte tem emprego na sua área garantido, pois não há emprego no país para todos.

Eu, por mim, ainda dou a este Governo tolerância. Acredito que Passos Coelho saberá ler e ouvir o que escrevem e dizem os cidadãos e os próprios militantes do seu partido. E que saberá fazer as correcções necessárias à sua proposta, mantendo a austeridade e cortes necessários, mas mudando a incidência sobre quem estes recaem e sobre a forma como os aplica.

Acima de tudo, como bem disse hoje Paulo Portas, cair o Governo agora era deitar fora todos os sacrifícios feitos até ao momento. E pior, era abrir portas aos irresponsáveis socráticos que ainda aí andam e que nos puseram neste estado - a alternativa que Seguro propõe é voltar à política de incentivos e apoios do Estado que Sócrates e os anteriores praticaram e que, como sabemos, não produziram crescimento económico (nos últimos dez anos raramente passou o 1% de crescimento) e aumentaram a nossa dependência dos credores externos ao ponto de obrigar à actual humilhante assistência externa dos credores corporizada na "Troyka" e que no fundo nos retira muito da nossa soberania, devolvida exame após exame e num espaço de tempo que não deve aumentar nem num montante que não deverá ser maior que o já negociado - sob pena de estarmos mais tempo sob o jugo da Troyka e de dependermos ainda mais deles financeiramente! Por isso é que eu entendo a "obstinação" do Governo em cumprir no prazo e no montante previsto o acordo de assistência: é que quanto mais depressa o for feito e dentro dos limites contratados, mais depressa seremos autónomos e nos veremos livres deles...

A questão que fica é se teremos desta vez aprendido a lição que não aprendemos nas duas anteriores vezes de assistência externa financeira e se mudamos a estrutura do orçamento português ou se tudo continuará na mesma rumo a nova intervenção cíclica... eu que estou prestes a fazer 40 anos e que assisto à primeira assistência externa financeira em adulto mas a 3ª na minha vida, gostaria que esta fosse de vez e a última... É preciso mudar Portugal, mesmo!

2012/06/05

1º aniversário da vitória eleitoral

Faz hoje precisamente um ano que o PSD, com Pedro Passos Coelho, venceu as eleições legislativas derivadas da saída de Sócrates pela porta baixa.

Deixou o país em pantanas, quase na falência, sujeito à intervenção financeira externa de salvação e delapidado para muitos e muito anos - talvez para uma geração.

Este primeiro ano não foi fácil, como não serão os seguintes. Há a clara noção que ou se aproveita o MoU com o FMI e a UE e se endireita, de base, muitos dos problemas crónicos estruturais do país ou mais vale desistir já. O caminho é duro e muito pedregoso, mas tem de ser trilhado por esta via pois, por mais que algumas vozes derrotadas e que nos puseram neste estado digam, não há outra alternativa.

A primeira parte do trabalho foi implementar muitas das mudanças acordadas e outras que eram necessárias. A segunda parte, agora que os indicadores mostram que há melhorias em relação ao passado mais recente, é preciso reconstruir a economia e diminuir a taxa de desemprego, de forma a relançar o país novamente e estancar a espiral psicológica depressiva dos cidadãos - quando se perde a crença num futuro melhor, perde-se a crença no país.

Força, Portugal!