2013/11/04

O fim do estado de graça

O empate em Belém foi, quanto a mim, o fim do estado de graça do actual treinador do FC Porto.

Mais do que o resultado, a parte pior foi a falta de vontade e fio de jogo, a pouca astúcia nas substituições e o não assumir, no final, do mau jogo e mau futebol praticado. Porque quem vem dizer bem da entrega dos jogadores, do futebol praticado e deitar as culpas no estado do relvado não tem condições para ser treinador do FC Porto. Disse-o inúmeras vezes sobre o anterior treinador quando no final de imensos maus jogos veio dizer estas mesmas palavras, repito-o agora.

Fonseca teve um inicio complicado devido a uma questão: a perda de Moutinho. O motor e principal pensador do jogo do FC Porto, depois de sair, deixou um enorme vazio no meio-campo. Mas também teve a possibilidade de escolher entre inúmeras opções que a SAD lhe colocou à disposição para formar o seu meio-campo: Fernando (que não foi vendido e há o risco, quase certo, de sair a custo 0 no final da época), Lucho, Defour, Castro, Tiago Rodrigues, Izmaylov, Carlos Eduardo, Josué e Herrera. Nunca nos últimos 3 anos o FC Porto teve tantos homens para o miolo do terreno, todos com características diferentes, como esta pré-época. A opção de dispensar uns e ficar com outros foi, tanto quanto tenha percebido, do treinador. A opção de mudar o sistema táctico de 4123 para 4213 também foi do treinador e era de supor que ao fazer isso estivesse a pensar nas escolhas que fez para o seu meio-campo.

Assim, 3 meses depois da época se iniciar em princípios de Agosto, cerca de 1/3 da época decorrida, era suposto começar a ver resultados das opções tomadas.

O problema é que aquilo que se vê não é famoso.

Nem o meio-campo carbura nem é estável nem sequer agora é certo que ainda jogue em 2-1 como tentou o treinador ao longo destes meses. As várias combinações que experimentou foram sendo relegadas para trás por novas combinações - Fernando com Josué e Lucho, Fernando com Defour e Lucho, Fernando com Herrera e Lucho, ora Josué, Defour e Herrera mais atrás, ora mais à frente, ora Lucho solto a 10 ora Lucho a fazer o vai-vem defesa-ataque, ora Fernando quase encostado aos centrais, ora livre para subir até ao ataque... ninguém se entende e ninguém cria automatismos dessa forma. Mais, acho que houve erros de avaliação de jogadores. Izmaylov nunca foi opção e há mais de um mês que nem sequer está no Porto ficou e ocupou uma vaga que poderia ter sido de Tiago Rodrigues ou de Castro. Castro foi dos melhores da pré-época e era o único capaz de substituir Fernando, com diferentes características, mas foi dispensado. Tiago Rodrigues foi dos que melhores apontamentos mostrou na pré-época, mas foi dispensado em desfavor de Carlos Eduardo que mostrou claramente que ainda é cedo para o seu tempo no clube, se alguma vez o vier a ter. Josué foi o que melhor soube interpretar o lugar que Moutinho desempenhava na equipa, mas rapidamente passou para as alas (onde não tem velocidade para tal) e para o banco.

Da defesa, continuo na minha: esta tripla de centrais que perdura já há algum tempo (esta é a 3ª época) é a mais fraca em 30 anos de FC Porto. Não são maus jogadores, mas nenhum deles é acima da média. Bruno Alves, que foi o mais fraco de todos os acima da média que o FC Porto teve nos últimos 30 anos, é imensamente superior a Otamendi, Mangala ou Maicon. Vale-nos Helton que é um grande guarda-redes, como ainda este fim de semana se viu.

Nas laterais, a chamada de Fucile poderia abrir espaço para uma rotação de jogadores com Danilo e Alex Sandro, dando tempo de jogo aos 3, mas ao invés Fucile foi posto novamente de lado até ao ponto de, segundo parece, ter tido outra pega com este novo treinador - mais um jogador perdido.

Na alas à frente, Varela ficou e mesmo sendo bipolar, é o melhor de todos. Mas continua a faltar aquela classe de fora de série. E Licá tem de ser ainda rotinado e não passa de um bom banco, mas nunca é jogador para ser titular de caras do FC Porto. Ricardo é o jogador que tem mais potencialidade para crescer e ser o desequilibrador que precisamos, mas lançar um miudo de 20 anos neste contexto não é fácil. E não há mais alternativas, porque nem Izmaylov nem Josué são extremos, nem Kelvin parece contar para este treinador.

Por último, na frente, Jackson continua mal servido e mesmo assim continua a marcar. Ghilas, que se calhar é melhor extremo com a excepção de Varela que qualquer um dos outros, continua a não jogar nem ter minutos e até Kléber, a maior nulidade que passou pelo FC Porto desde Vinha, já foi chamado para o banco num jogo da Taça...

Enfim, com as derrotas para a Liga dos Campeões e com os dois empates despropositados no Estoril e em Belém, aquilo que tinha tudo para ser uma época de sucesso pode começar a complicar-se e boa parte da culpa a poder ser assacada ao treinador.

Vítor Pereira tinha de sair e não tinha condições para ser treinador de um FC Porto europeu - servia para consumo interno e mal. Mas como sempre desconfiei, a aposta em Paulo Fonseca era de extremo risco e está a falhar. Quando havia Leonardo Jardim e Domingos na fase final da época passada. Ou Domingos, que ainda está livre. Um, como se vê no Sporting para onde foi substituir outra nulidade como Jesualdo, está a fazer a melhor carreira do clube desde que este foi campeão há muitos, muitos anos. O outro tem trabalho feito que fala por si e é um portista de alma.

Paulo Fonseca perdeu o seu momento. O seu estado de graça terminou. Exige-se agora a reviravolta completa, agarrar o campeonato e a Liga dos Campeões já, com vitórias indiscutíveis. Até ao Natal tem de ganhar todos os jogos, para ganhar o campeonato e a qualificação na Liga dos Campeões, sem compromissos nem meias-vitórias ou vitórias morais. Só assim mostrará a sua capacidade de liderar esta equipa e estar preparado para o cargo que ocupa. Este é o momento de mostrar se é da estrutura de Quinito ou se de Villas-Boas.
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