2012/12/28

O Porto, o Norte, o centralismo de Lisboa e os políticos

Alguns comentários sobre a sugestão de Paulo Rangel de se fazer "um 15 de Setembro conta o centralismo do Governo" na Avenida dos Aliados.

1. O Porto
Tem vindo a perder peso no Norte, quer porque os concelhos limítrofes se impuseram no seu estatuto de dormitórios atraindo imensa população, quer porque muitos dos principais representantes da cidade foram deslocalizados para outras zonas, nomeadamente para a capital, quer ainda porque o eixo Guimarães-Braga ganhou um enorme peso nos últimos 20 anos, metropolinizando-se (se é que existe este palavrão) e autonomizando-se em muitas das suas necessidades do Porto.
Mas o Porto sempre foi centralista no Norte, como se percebe desde a questão do Vinho do Porto - que é produzido no Alto Douro e armazenado em Gaia - até ao pouco interesse que tantas vezes demonstrou ter sobre o restante território nortenho, olhando mais para o restante território como extensões do que como outras partes importantes no todo.

2. O Norte
Não há norte político, apesar de haver um norte geográfico  um espaço mais ou menos bem delimitado da Galiza até aos municípios que fazem a encosta sul do Rio Douro. Mais, este norte, se bem explorado, poderá até incluir a própria Galiza, num renascimento do que foi a ideia do Eixo Atlantico do Noroeste Peninsular e que está, basicamente, moribundo.
A sua força poderia ser enorme se os municípios se soubessem unir e trabalhar em conjunto para esse fim. No entanto, é enviesado o sentido da coisa e todos se querem apropriar desta ideia de serem os líderes do norte e acharem que os vizinhos só estão na coisa para tirar vantagens sobre eles, para que esta grande região se ande a degladiar entre si apenas com o beneficio do centralismo de Lisboa.

3. O centralismo de Lisboa
É uma realidade, não há como contornar a questão. Desde há muito que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem para os Governos que centralizam o grosso do investimento na área da Capital, que procuram puxar para lá todos as iniciativas/entidades/organismos de algum sucesso fora de lá e que insistem em não olhar para o país como um todo.
Casos como o recente desejo de António Costa de levar para o Tejo a corrida de aviões da Red Bull (que movimentava cerca de 700 mil a um milhão de espectadores num fim de semana na zona ribeirinha do Douro) foi o último de muitos outros exemplos, que passam de sedes de empresas importantes até ao encerrar de delegações ministeriais no Norte e obrigação de deslocação a Lisboa para se tratar dos assuntos e, naquele que para mim é o mais grave dos centralismos: a condensação de grandes investimentos em Lisboa contra as migalhas do resto do país. Vejam-se os casos dos últimos grandes investimentos do Estado português: a rede de estradas (uma miríade de autoestradas, muitas ainda grátis, na zona de Lisboa, várias paralelas entre si, com obras de elevadíssimo valor de execução não só por causa do preço dos terrenos mas pela megalomania com que foram executadas), a Expo-98 (que poderia ter sido feita em muitos outros pontos do país) ou até o Euro-2004 onde Lisboa recebeu 2 estádios novos que juntos custaram quase tanto como os outros todos juntos).

4. Os políticos
Os do norte, hoje, não têm peso. Rui Rio perdeu-se em batalhas citadinas e não saiu do seu território, não aproveitou a credibilidade que tinha externamente e que conquistou pelo rigor e disciplina económicos que levou para a CM Porto para se impor. Menezes esteve sempre na peugada de Rui Rio, com um olho no país e outro na CM Porto. Aqueles que têm chegado ao Governo ao longo dos anos oriundos do Norte não têm sabido ser seus amigos e, quando chegam a Lisboa, rapidamente trocam os discursos pró-norte por práticas centralistas, beneficiando a região de Lisboa em detrimento do Norte.

5. Paulo Rangel
O ideia que Paulo Rangel desenvolve não é nova nem é má. Os motivos que aponta é que não são bons. Por causa de um programa de televisão? Por causa de uma administração da Casa da Música ter menos um milhão para gastar no próximo ano (quando lá fui vi milhares de Euros gastos em programas multicoloridos, livretos, tudo em papel grosso e caro e com elásticos a envolver, cheios de rócócós e coisas sem nexo onde se via que dinheiro ali, não faltava) ou por causa da privatização da ANA? Não faz sentido, isto é "non-sense", é "lana caprina" e não o fulcral, não o essencial, não os verdadeiros assuntos de estado que urge discutir e defender.

Em conclusão, a critica é, quanto a mim justa porque verdadeira, mais em relação ao Norte que ao Porto propriamente dito.
Mas os argumentos devem ser revistos, bem como a forma e o local onde a critica é feita.
Enquanto políticos como Paulo Rangel não perceberem que devem primeiro criar uma estrutura unida e forte no Norte, agregando outros políticos do Norte todo, agregando até a Galiza, agregando as ideias que o Norte tem e precisa de defender e só depois então embarcar nessas manifestações populistas que para resultarem devem, primeiro, ser sentidas pelas populações que nelas terão de dar corpo e voz, nunca iremos a lugar nenhum e continuaremos a ser um alvo fácil do centralismo de Lisboa que continua a dividir (o norte) para (melhor) reinar!
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