2011/12/13

10 anos de Património Mundial da Humanidade em Guimarães. E agora?

Faz hoje 10 anos que o Centro Histórico de Guimarães foi elevado a Património Mundial da Humanidade, distinção efectuada pela UNESCO no âmbito da recuperação e preservação de características quase únicas que se mantiveram ao longo de centenas de anos.

Se num primeiro momento a distinção foi vista como um prémio ao trabalho que município, investidores/promotores imobiliários, técnicos e profissionais da área da construção, engenharia e arquitectura e ainda os munícipes desenvolveram, num segundo momento houve a percepção que essa distinção era apenas o principio de um caminho árduo - o da preservação desse título.

O problema é que o CH hoje não é o CH de há 30 anos atrás, quando começaram os primeiros trabalhos que conduzirão ao tão almejado reconhecimento internacional. Hoje o CH é muito mais despovoado, as pessoas que habitavam morreram ou foram habitar a cintura urbana da cidade e, lenta mas inexoravelmente, o CH tem sido abandonado pelos seus habitantes tradicionais.

Para além disso, as exigências da qualidade de vida dos cidadãos são hoje infinitamente superiores ao que então era normal exigir. Tudo em conjunto, coloca uma enorme pressão de evolução das regras e ocupação do CH, mas sempre com a questão da classificação da UNESCO a pairar sobre este espaço. Por isso acho que nesta altura seria fundamental Guimarães começar a pensar e debater quais os caminho de futuro do CH. Porque estando cada vez mais desertificado e menos vivido, cada vez mais se assume como área de serviços e diversão, e também como um museu a céu aberto. E quanto a mim, isso não faz sentido nenhum, o CH é para ser vivido, usado por todos mas com condições de qualidade de vida que se ajustem aos tempos de hoje, única forma de atrair novos habitantes (quer em idade, quer por serem novos na zona em causa).

O novo Toural: Imagem Skyscrapercity
Mas, em vez disso, o município teve outras preocupações. Preferiu investir alguns, largos, milhões de Euros no arranjo urbanístico do Toural e da Alameda, no que se pode definir como uma obra ousada. Ousada porque mexeu nas memórias colectivas de todos nós, que crescemos e aprendemos a ver estas duas emblemáticas zonas do CH, centro da cidade, da forma em que elas se encontravam hoje. E ousada porque mexeu em locais que, de facto, não necessitavam de ser mexidos se não fosse para fazer uma intervenção de fundo, radical, na forma de utilização e fruição destes espaços - o que não aconteceu, pois o município optou por um meio caminho e ficou-se por um "alindamento" de passeios e ruas, ligeiras alterações de pormenor (deslocação de uma oliveira para ali, colocação de uma fonte acolá, retirado um monumento de acolí...) mas que no fundo nada de radicalmente diferente e novo trouxe.

Ora num momento em que o CH se desertifica, em que o comerciantes e prestadores de serviços têm vindo a abandonar o local, em que o país enfrenta uma enorme crise económica-financeira (a maior dos últimos 30 anos) a pergunta que coloco é a quem serviu esta obra?

E agora, para que serve este novo Toural que se vê na foto?

Tenho dúvidas, desde o primeiro momento, que este tenha sido o melhor caminho a seguir. Continuo a pensar que havia/há outras prioridades que deviam ser trabalhadas (que já fui aflorando neste texto) e para onde era necessário canalizar verbas no CH. Gostaria de ver isso debatido...

10 anos de Centro Histórico como Património Mundial da UNESCO e um novo Toural e Alameda. Um dia para festejar ou para pensar se o dia seguinte vai ser melhor ainda?
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