2009/03/31

Arquitectura: projecto e obra

Já há algum tempo que não faço nenhuma reflexão teórica sobre o assunto "arquitectura".

E hoje, não sei porque carga de água, lembrei-me que o ensino de arquitectura tem uma lacuna tremenda, que é a "obra"! Ou melhor, sei porque me lembrei: porque o projecto que estou a construir tem imensos problemas desse género...

E quanto a mim o problema vem da escola. O ensino versa muito sobre o "projecto", sobre o trabalho de gabinete, sobre a criatividade e arte e descura a parte da "obra", dos aspectos técnicos construtivos. Mesmo quando entramos em gabinete continuamos muito ligados ao "projecto" e a noção de "obra" acaba por passar um pouco ao lado.

Quem teve a oportunidade, como eu tenho neste momento, de fazer direcção de obra (ou até mesmo preparação de obra), desde a planificação dos equipamentos, material e pessoal até ao acompanhamento de tudo o que é trabalho de execução (movimentos de terras, estruturas, alvenarias, acabamentos, instalações especiais, etc) percebe a enorme lacuna que esse capitulo é na formação do arquitecto.

Estar envolvido na construção como verdadeiro Director de Obra (e não o DO de fachada para obtenção do alvará que em 99% das obras particulares ocorre) onde, trabalhando para o empreiteiro geral estamos ligados a tudo, analisamos o projecto, encomendamos o material, solicitamos o pessoal e equipamento para a execução, dentro do orçamento fixado e no melhor prazo possível, dá-nos uma nova concepção do "projecto".

O projecto de arquitectura é, quanto a mim, demasiado egocêntrico, em Portugal. Os projectos são, em primeira instância, feitos para os utilizadores do espaço. E, quanto a mim, em segunda instância deveriam ser feitos para quem os vai levantar do chão e tornar realidade, os empreiteiros. E só por fim deveriam ser do arquitecto, que a partir do momento em que o entrega ao cliente está a dar à adopção um filho que fez nascer e que ganha, nesse momento, asas para voar só...

A realidade de obra, de transpor o projecto para as 3 dimensões reais de betão e tijolo traz muitas nuances que só quem passa pela experiência de construir, de facto, ao longo de vários meses, é que percebe as lacunas e omissões de projecto que complicam, dificultam e obstaculizam o andamento da obra.

A relação do projecto de arquitectura com as mais diversas especialidades (e são cada vez mais) é outro factor que acresce os problemas de obra. Ou melhor, o que traz problemas é a falta de relação, pois estes não se ajustam à obra em muitos casos e obrigam a alterações várias na arquitectura. São os projectos de estruturas que trazem pilares e vigas onde na arquitectura nada consta, são os projectos de segurança que viram as portas ao contrário e causam constrangimentos à electricidade, AVAC, segurança, carpintarias e serralharias, são os projectos de AVAC que têm cassetes mais altas que os tectos falsos ou splits maiores que o espaço para os localizar, são os projectos de electricidade que implicam grande passagem de tubos em pontos onde no papel resulta bem e em obra não se consegue devido ao tipo de tubo, são os projectos de vãos que solicitam vidros de grandes dimensões ou caixilhos grandes de pequeno perfil e cuja execução é desajustada, são tantas as situações que os projectistas criam que se alguma vez estivessem estado envolvidos, de facto, com a construção, passariam a projectar de forma diferente.

Porque no final, o principal prejudicado é o cliente. Porque não vai ter o "produto" que sonhou. Porque vai demorar mais tempo a executar do que pensou. Porque vai ser muito mais caro do que planificou. E há coisas que se o arquitecto, no momento de projectar, de traçar o risco que será a parede, estiver a pensar no trolha que a vai levantar, no carpinteiro que vai fazer a porta ou a janela, etc, vai com toda a certeza riscar de uma forma mais consciente e integrada no projecto global. E se o cliente não ficar satisfeito, os arquitectos são prejudicados na globalidade por não serem capazes de desempenhar na globalidade a sua função. E quanto a mim, esse problema nasce na escola, no currículo de cada curso, que dá pouca importância a esse aspecto - numas universidades mais do que noutras, é verdade, mas todas deficitárias.

Por isso o meu conselho para os jovens arquitectos é que tentem, durante algum tempo, estar ligados de facto à "obra", à construção, sair do gabinete e deixar o "projecto" para os outros. Creio que os ensinamentos que vão beber desse estágio serão muito proveitosos para o futuro da sua carreira.
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