2004/07/15

O Ensino da Arquitectura em Portugal

Um novo blog sobre arquitectura, o Critico de Arquitectura, que tenho seguido espaçadamente (tanto quanto o trabalho me permite...) e com interesse, julgo que realizado por "leigos" como se auto-definem, lançou para discussão o tema do Ensino da Arquitectura em Portugal.

Tentando contribuir para a discussão, começo por referir que me falta um ponto de referência fundamental, que é o ensino da Arquitectura nos outros países, visto que nunca estudei fora de Portugal. E esse seria o melhor termo de comparação entre o que se ensina "cá" e "lá"...

Depois, julgo que o problema em Portugal não é só do ensino da Arquitectura, é um mal geral que começa na primária. Explicando: acho que logo na primária os alunos não são tratados como alunos, antes como umas criaturas indefesas que podem ficar muito traumatizadas se forem "forçadas" a aprender o que quer que seja; e acho ainda que os professores não são capazes de se aperceberem desde a mais tenra infancia das aptidões dos seus alunos, no que deveria desde logo ser um exercicio fundamental para aplicar esforços em melhorar naquilo que são mais fracos e ajudar naquilo em que demonstram maiores aptidões a usar esses recursos inatos numa melhor aprendizagem. Durante o secundário os alunos recebem uma formação de moldes muito diferentes daquilo que depois se passa nas universidades, as aulas são diferentes, o relacionamento com os professores é diferente, as matérias são dadas de forma diferente. E é hoje unanime que a cada dez anos os alunos saem pior preparados que os anteriores...

Assim, desde logo o ensino da Arquitectura é uma tarefa muito mais complicada hoje. Até pela massificação: onde há 10 anos havia 500 alunos por ano em todo o país, hoje é bem capaz de haver só isso numa só qualquer universidade...

Quanto ao ensino ministrado pelos profesores, daquilo que posso contar da minha experiência pessoal que terminou em 1996, julgo que não tem muito a ver com o que depois se encontra no mercado profissional. Isto é, os alunos não recebem um ensino para se preparem para serem "profissionais" de Arquitectura - são pessoas que têm de ter bom relacionamento com outras pessoas pois são coordenadores entre vários profissionais, têm de saber um pouco de ergonomia e terem bom-senso e compreensão dos hábitos de vida das pessoas para quem vão fazer o projecto de forma a que este satisfaça as necessidades vitais do requerente e "purgue" o projecto de erros de concepção derivados de maus programas que os requerentes por vezes insistem em querer executar, são pessoas que têm de ter capacidade de negociação e de apresentação, oral e escrita, de argumentos - para "convencer" quer clientes quer colegas que apreciarão os seus trabalhos nas diversas entidades - e têm de ter uma enorme margem de progressão para saberem um pouco de tudo - eu hoje sei um pouco de civil, um pouco de hidráulicas, um pouco de gás, um pouco de electrotécnica, um pouco de como se constrói, um pouco de materiais e de como se aplicam, etc... Infelizmente, as universidades tendencialmente formam "artistas" que desenham muito bem mas cujas obras finais muitas vezes não são "habitáveis" - ficam excelentes em revistas mas os seus habitantes não se conseguem nelas fixar - ou apresentam erros dramáticos de construção por desconhecimento de materiais e de como os mesmos se aplicam ou onde se aplicam ou ainda alternativas a esse material, por exemplo.

Enfim, já dei aqui algumas achegas... Julgo que a maior parte dos colegas que têm saído das universidades desde a década de 90 (onde me incluo) têm que aprender o oficio no dia a dia do gabinete ou construtora ou câmara municipal ou onde arranjem trabalho. Mas estas são contas para outro rosário!

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