2004/05/05

O Jogo

Meias Finais Liga dos campeões » Desportivo da Corunha 0 - FC Porto 1

Impossível é nada

O FC Porto está na final da Liga dos Campeões. Dito assim, de repente, depois da conquista da Taça UEFA na última temporada, até chega a soar a banalidade. Mas não é. Há alguns meses parecia impossível. Até José Mourinho chegou a dizê-lo, sublinhando que a liga milionária era para milionários, excluindo equipas portuguesas. Por outro lado, não chega a haver uma contradição. O FC Porto não é uma típica equipa portuguesa. Não se encolhe perante as dificuldades. Cresce. Não se deixa amedrontar por moinhos de vento. Assusta. Não admite que alguma coisa é impossível. Acredita. Acredita, por exemplo, que a palavra impossível não se lhe aplica. Esta época ninguém tinha ganho no Riazor (nem sequer marcado um golo...), mas o FC Porto ganhou. Ganhou com um golo marcado por Derlei, o tal jogador que Javier Irureta não acreditava poder jogar porque não tinha ritmo. Mas Irureta não conhece Derlei como nós ou como José Mourinho. E foi por isso, entre outras coisas que perdeu. Porque Derlei não tem fim, e estica o FC Porto com ele para lá do razoável.

Agora, o FC Porto vai jogar a final da Liga dos Campeões, em Gelsenkirchen, e o único limite é o céu. Quantas vezes vamos poder dizer isto? Afinal, muito de vez em quando, ser português até pode ser bom, que diabos!

Quem não tem Derlei caça com cão

O FC Porto está na final da Liga dos Campeões, entre outros aspectos, porque teve o super-homem na equipa. Quer dizer, um que era mais super ainda do que os outros, todos eles imbatíveis num jogo da outra galáxia que fez o Riazor ajoelhar e aplaudir. E todos estão disponíveis para Gelsenkirchen, porque, para além da vitória, souberam fugir aos temíveis cartões amarelos.

JOSÉ MANUEL RIBEIRO

O banho de bola dos campeões atirou o FC Porto, lavadíssimo de todas as recentes suspeitas de fraqueza, para Gelsenkirchen, onde o espera a segunda final europeia consecutiva. Um banho completo. O Corunha começou por ser muito bem esfregado, teve de aguentar champô, amaciador, gel, os sais, mas o que ontem garantia a limpeza absoluta era um detergente especial, como não haverá nenhum outro: Derlei. Produto abrasivo, sem prazo de validade, é o super-herói dos dissolventes, a quem nenhuma nódoa resiste. Nem nódoa, nem ruptura de ligamentos, nem Corunha; nada. Ter na equipa alguns colegas também com poderes especiais para a higiene da bola ajuda muito e foi a esse conjunto admirável que o Riazor bateu palmas, rendido mas honesto o suficiente para engolir a dor. Que deve ter sido gigantesca.

A entrada do campeão português foi surpreendente, com certeza, mas apenas capaz de surpreender quem perdeu jogos como o Marselha-FC Porto ou FC Porto-Manchester United esta época - ou se esqueceu deles, fenómeno muito fácil de ocorrer. Mourinho trouxe ao Riazor o futebol mais apurado que já se viu à sua equipa, interpretado por um onze inédito, no qual estava, afinal, Derlei, não um Derlei qualquer, mas o Derlei de sempre, intacto e fatal. Irureta tentara sem sucesso um golpe mediático, na véspera, para tentar levar o adversário a dizer se o brasileiro jogaria ou não. Jogou e a novidade foi a dobrar, porque emparceirou com Carlos Alberto; dois condutores de bola a quem é sempre muito, muito difícil roubar-lha e a partir dos quais o FC Porto construiu o seu jogo de pressão permanente, como nos melhores tempos da equipa. Sem os famosos alas, os dragões estenderam-se na mesma por todo o campo, superiores na posse e na recuperação, conjugando cruzamentos e grandes roturas que abriam espaços no centro do campo.

Compressão

Esta foi a fase da descoberta. O Corunha estaria preparado para a resistência que o Real Madrid lhe deu no último sábado, mas não acreditou que o FC Porto pudesse fazer melhor. Mais: não acreditou que o FC Porto pudesse, eventualmente, ser-lhe superior. Ficou comprimido numa pasta insegura que só conseguia arrancar alguns contra-ataques - podia ter marcado, sim, e chegou a conseguir tirar o jogo aos dragões, na primeira parte, mas foram apenas cinco minutos, contra quarenta de ditadura lilás, a que faltou o final; um passe fatal, um remate lúcido. É difícil sacudir um adversário quando se tem Derlei à perna logo à partida, tão longe ainda da baliza certa, e seria injusto esquecer todos os outros corredores, não obstante a falta de lesões recentes que os salientem para níveis sobre-humanos.

Primeira parte a zero, segunda parte mais equilibrada - para o lado do FC Porto. Luque já concentrara as hipóteses do Corunha antes do intervalo, dependência que se agravou no regresso dos balneários, com vantagens para os galegos. Alguns repelões, cruzamentos, resolvidos conforme as possibilidades na área do FC Porto, sem que, no entanto, a equipa portuguesa perdesse diâmetro. Continuava a pressionar, jogando no erro dos galegos e ganhando com isso um espaço que não tivera antes do intervalo. A relativa impotência do Depor só enfatizava as diferenças: os dragões eram melhores, trabalhavam mais e acabariam por marcar. O primeiro golo "estrangeiro" no Riazor esta época chegou à sétima tentativa. A Juventus procurou-o, o Milan desesperou por ele, mas foi o FC Porto quem o marcou. Por Derlei, o fantasma.

Dos três jogadores tirados do banco por Irureta, Tristán terá sido o único com verdadeira interferência nos acontecimentos. Mais completo do que Pandiani, abanou um pouco o jogo criando-lhe outra partição ligeiramente favorável ao Corunha - e estéril porque Mourinho estava muito atento. Ainda o internacional espanhol conversava com os colegas e já Carlos Alberto saía para que Pedro Emanuel pudesse preencher o buraco que os galegos esperavam abrir. Movimento perfeito, simples, sem nada de genial por trás, mas costuma ser necessário um toquezinho de genialidade para que estes movimentos perfeitos e simples resultem sempre. Dois minutos depois, Naybet apontava às caneleiras de Paulo Ferreira e logo depois ao balneário, porque Collina não hesitou em aliviar um pouco a missão do FC Porto com amarelo (e vermelho) correcto. O jogo acabou, ou melhor, dissolveu-se gradualmente. Perdão, melhor ainda, ajoelhou-se aos poucos, em harmonia com o estádio, que bateu um milhão de palmas ao primeiro finalista da Liga dos Campeões.

Estádio do Riazor | relvado: razoável | espectadores: 34 000 | árbitro: Pierluigi Collina, Itália | assistentes: Marco Ivaldi e Narciso Pisacreta | 4º árbitro: Roberto Rosetti

Corunha 0 - FC Porto 1

GOLOS [0-1] Derlei, g.p. 58'

1 Molina GR
2 Manuel Pablo LD
3 Romero LE
4 Naybet DC
5 César DC
23 Duscher MD
8 Sérgio MD 67'
18 Víctor AD 55'
21 Valerón MO
19 Luque AE 72'
7 Pandiani AV
Javier Irureta
13 Munúa GR
15 Capdevila LE
20 Pablo Amo DC
10 Fran MO 72'
12 Scaloni AE 55'
16 Djalminha MO
9 Diego Tristán AV 67'

amarelos 11' Naybet, 70' Naybet, 90' Tristán
vermelhos 70' Naybet

99 Vítor Baía GR
22 Paulo Ferreira LD
2 Jorge Costa DC
4 Ricardo Carvalho DC
8 Nuno Valente LE
6 Costinha MD
23 Pedro Mendes MD 87'
18 Maniche MO
10 Deco MO
19 Carlos Alberto AV 68'
11 Derlei AV 90+2'
José Mourinho
13 Nuno GR 99'
3 Pedro Emanuel DC 68'
5 Ricardo Costa DC
17 Bosingwa MD 87'
15 Alenitchev MO
9 Jankauskas AV
77 McCarthy AV 90+2'

amarelos 33' Carlos Alberto, 80' Pedro Mendes
vermelhos nada a assinalar
Enviar um comentário