2004/06/09

A morte de Sousa Franco

Antes de mais, devo dizer que a noticia me chocou, em especial pelos contornos dos acontecimentos que rodearam a tragédia.

Qualquer vida humana, como já aqui o demonstrei, é mais valiosa do que qualquer diferença que me separe dessa pessoa. Prezo a vida acima de outros valores. Apenas o valor da liberdade se equivale ao valor da vida humana: não me parece que exista grande interesse em viver sem ser em liberdade (de pensamento, circulação, opinião, etc...) e reunidas estas duas condições, se juntas com capacidade de raciocinio e diálogo, o saber falar e o saber ouvir, então temos reunidas as condições para que a perda seja muito mais do que uma simples vida humana.

Sousa Franco estava neste grupo.

Não concordei com a maioria das opiniões que teve ao longo dos últimos 20 anos e não consigo perceber como é que uma pessoa com mais de 30 anos de idade consegue ajudar a fazer os estatutos do CDS, ajuda a fundar o PPD, chegando a ser seu presidente, era católico practicante e foi até embaixador do Vaticano para a negociação da nova concordata e se tenha "passado" e se sentisse bem num partido de esquerda, actualmente de esquerda muito acentuada...

Apesar de tudo o que de mau fez como ministro das finanças do pior Governo desde D. Maria, como uma vez o afirmou em voz alta num restaurante lisboeta, surpreendeu-me pela positiva nesta campanha eleitoral pela forma como abordava as pessoas e pela forma colhia alguma simpatia junto do eleitorado. No entanto, não gostava dos seus discursos: apelava para um pacto de não insulto mas nunca hesitou em utilisar palavras mais duras para qualificar o Governo e em particular um dos partidos que compõem a coligação "Força Portugal". Mas com o seu curriculo profissional e com a capacidade técnica de trabalho que lhe era unanimente reconhecida, julgo que seria um excelente eurodeputado no Parlamento Europeu, onde Portugal deverá sempre estar representado por excelentes quadros técnicos que ajudem e valorizem Portugal na execução das mais de 60% de leis que regem os países da UE hoje em dia.

Infelizmente, faleceu na parte final da campanha eleitoral, sucumbindo a uma lamentável cena entre facções do PS de Matosinhos, em guerra aberta e que culminou hoje com desacatos de vária ordem e cenas ridiculas entre Narciso Miranda (presidente de Câmara) e Manuel Seabra (presidente da concelhia do PS) a disputar o braço de Sousa Franco para aparecerem na TV e jornais...

Conclusões:
* Portugal perdeu um péssimo ministro mas um excelente técnico e um potencial excelente deputado europeu;
* a lista do PS saiu claramente desfavorecida com esta situação, já que nenhum dos candidatos seguintes apresenta um curriculo no minimo comparável ao do malogrado cabeça de lista - apenas podem competir na parte de péssimos ministros;
* se os dois "senhores" de Matosinhos tiverem um pingo de vergonha na cara, e em homenagem à pessoa de Sousa Franco, demitem-se de todos os cargos políticos e partidários e desaparecem da vida pública local e nacional para sempre - é o mínimo que podem fazer depois do que se passou na manhã de hoje na lota de Matosinhos...

Em suma, apesar de tudo o que me separava de António Sousa Franco, curvo-me perante um Português que na sua essência era um Homem bom, conforme quem melhor o conheceu tem atestado ao longo deste dia.
Parabéns também a todos os partidos políticos que imediatamente terminaram a campanha eleitoral e ainda ao Governo que muito bem decretou o dia do seu funeral, 11 de Junho, de Luto Nacional.
Enviar um comentário